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Antes de escrever, desenhe: quantas páginas o seu livro precisa ter?

“Lilian, quantas páginas o meu livro precisa ter?”. 

E a minha resposta costuma surpreender: a pergunta está certa, mas chega tarde demais.

Quase sempre ela aparece quando o manuscrito já está pronto, e aí o autor descobre que escreveu um romance de 100 páginas, um livro de negócios de 500 ou uma autobiografia que ninguém vai conseguir carregar na bolsa. O tamanho de um livro não é um detalhe de acabamento. Ele é uma decisão de projeto, e projeto (estratégia) se faz antes da obra, não depois.

O tamanho não mede qualidade, mas comunica muita coisa

Vamos combinar uma coisa: nenhum leitor se apaixona por um livro porque ele tem exatamente um número certo de 312 páginas (se fosse um número cabalístico, ou seja, os best-sellers têm X páginas). A literatura está cheia de obras-primas curtíssimas e de clássicos que pesam quase um quilo. 

O que vale é a história e o espaço de que ela realmente precisa para ser contada.

Ainda assim, o número de páginas fala antes do autor. Na livraria, o leitor pega o livro, sente o volume e cria uma expectativa em segundos. Um thriller fininho demais parece “pouco”; um guia prático grosso demais parece “trabalho”. Cada gênero tem um contrato silencioso com o seu leitor, e o tamanho faz parte desse contrato.

E há o lado do negócio, que eu nunca deixo de lembrar aos meus autores. O número de páginas define o custo de impressão, o preço de capa, a margem do autor e até a lombada, que é, muitas vezes, a única parte do livro que aparece na prateleira. Livros muito curtos têm dificuldade de justificar o preço; livros muito longos ficam caros demais para um autor estreante.

Cada tipo de livro tem o seu formato

Não existe um número mágico, mas existem faixas que o mercado e os leitores já reconhecem. Reuni abaixo as referências que uso no dia a dia com os autores. As páginas são uma estimativa para o formato mais comum no Brasil (14 x 21 cm), com cerca de 280 palavras por página.

GêneroExtensão de referência (palavras)Páginas estimadas (14 x 21 cm)O que o leitor espera
Romance contemporâneo ou literário60 mil a 90 mil215 a 320Personagens com profundidade e tempo para respirar
Romance romântico60 mil a 90 mil215 a 320Ritmo fluido e arco emocional completo
Suspense, policial e terror70 mil a 90 mil250 a 320Tensão constante, sem “barriga” no meio
Fantasia e ficção científica90 mil a 120 mil320 a 430Mundo construído com detalhe; séries são comuns
Ficção histórica80 mil a 100 mil285 a 360Ambientação rica e pesquisa visível
Novela20 mil a 40 mil70 a 145Uma história concentrada, lida de uma vez
Coletânea de contos30 mil a 60 mil110 a 215Unidade de tema ou de voz entre os textos
Poesia40 a 80 poemas80 a 140Respiro na página; menos texto, mais espaço
Young adult50 mil a 80 mil180 a 285Linguagem ágil e protagonistas jovens
Infantojuvenil25 mil a 45 mil90 a 160Capítulos curtos e leitura autônoma
Primeiros leitores4 mil a 10 mil48 a 96, ilustradoFrases curtas e ilustração em quase toda página
Infantil ilustrado300 a 1.00024 a 32, ilustradoA imagem conta metade da história
Autoajuda e desenvolvimento pessoal35 mil a 55 mil125 a 195Ideias aplicáveis, sem enrolação
Negócios e carreira45 mil a 70 mil160 a 250Método, casos reais e autoridade
Biografia e memórias70 mil a 100 mil250 a 360Narrativa envolvente, não só cronologia

Use a tabela como bússola, não como regra. Um livro de autoajuda de 300 páginas pode funcionar, mas ele precisa ter um motivo muito claro para isso.

O meu, no caso, tem uma diagramação leve, com muitas notas de rodapé, QR Code, workbook e vários exercícios que justificam o tamanho.

Palavras não são páginas: o papel da diagramação

O mesmo texto pode virar um livro de 180 ou de 260 páginas. Quem decide isso é o projeto gráfico: formato do livro, tamanho e tipo da fonte, entrelinhamento, margens, abertura de cada capítulo e a presença de ilustrações, quadros ou epígrafes.

Por isso, eu sempre peço que o autor pense em palavras enquanto escreve e deixe as páginas para a etapa de produção. Cortar parágrafos importantes ou “esticar” o texto só para chegar a um número é um erro comum e caro. A conta certa se faz junto com quem vai diagramar, olhando também para o custo de impressão e o preço de capa que o seu leitor está disposto a pagar.

Uma dica prática: no Word, a contagem de palavras aparece no canto inferior da tela. Dívida esse número por 280 e você terá uma primeira estimativa de páginas no formato 14 x 21 cm.

Primeiro a planta, depois os tijolos

Ninguém constrói uma casa e só depois decide quantos quartos ela vai ter. Com o livro é igual. Antes da primeira linha, o autor precisa desenhar a arquitetura da obra, é ela que responde, de forma natural, à pergunta sobre o número de páginas.

Na prática, essa arquitetura passa por cinco decisões:

  1. Gênero e público. Para quem é o livro e em que prateleira ele vai estar. Isso define a faixa de extensão da tabela acima.
  2. Promessa central. O que o leitor vai sentir, aprender ou transformar ao terminar a leitura.
  3. Estrutura. Quantas partes e capítulos, qual o tamanho médio de cada um e como eles se encadeiam.
  4. Meta de extensão. Um número de palavras por capítulo e para o livro inteiro, que vira o seu cronograma de escrita.
  5. Formato final. Impresso, digital ou os dois; com ou sem ilustrações; e o preço de capa que faz sentido para o seu leitor.

Quando essas respostas existem, a escrita fica mais leve. O autor sabe aonde quer chegar, para de se perder em capítulos que não levam a lugar nenhum e termina o livro com o tamanho certo para o seu gênero, sem cortes dolorosos no final.

Quer desenhar o seu livro comigo?

Foi exatamente para isso que criei a Mentoria Arquitetos do Livro. São quatro meses em que eu e especialistas em escrita acompanhamos você na construção da arquitetura da sua obra: do gênero e do público à estrutura de capítulos, da promessa do livro ao formato final.

Você não sai da mentoria apenas com um número de páginas. Sai com um projeto de livro que faz sentido para o mercado, para o leitor e para a sua história, e com o caminho claro para escrevê-lo.

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Lilian Cardoso

Professora, jornalista e diretora da LC – Agência de Comunicação, a empresa que mais divulga livros no Brasil!
Por meio dos seus cursos e mentorias, ensina novos escritores a produzirem livros de qualidade e a alcançarem mais leitores com eficazes estratégias de marketing.

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