A inteligência artificial está transformando o mercado editorial — e o Brasil acaba de dar um passo importante para orientar esse processo com ética e responsabilidade. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) lançou o Manual de Boas Práticas de Inteligência Artificial em Editoras Brasileiras, um documento inédito e gratuito que oferece diretrizes práticas para editoras de todos os portes navegarem nesse novo cenário.
O lançamento aconteceu durante o 5º Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos (EELDG), na quinta-feira (14), em Guarujá (SP), consolidando o evento como um dos principais fóruns do calendário editorial brasileiro.
O que é o Manual de Boas Práticas de IA da CBL?
O manual nasceu da Comissão de Inovação e Tecnologia da CBL, coordenada por Cinthya Müller (Editora Todavia e Baião), e reúne representantes de grandes nomes do setor, como HarperCollins Brasil, Editoras Contexto e Labrador, Editora Planeta e Bookwire, entre outros.
O objetivo central é fornecer um guia ético e operacional para que editoras brasileiras adotem a IA Generativa de forma responsável, protegendo direitos autorais, valorizando a criação humana e preservando a identidade cultural do país.
“Este manual nasce da convicção de que a inovação precisa caminhar ao lado da responsabilidade. Nosso objetivo é oferecer um guia que ajude as editoras brasileiras a avançarem com segurança, ética e consciência do seu papel cultural.” — Sevani Matos, presidente da CBL
O documento está disponível gratuitamente no site da CBL. Clique aqui para fazer o download.
Os 4 pilares do manual: do princípio à prática
O guia está estruturado em quatro eixos temáticos que cobrem desde fundamentos filosóficos até orientações operacionais do dia a dia.
1. Princípios fundamentais
O primeiro capítulo estabelece as bases éticas do uso de IA no setor editorial. Os princípios abordados incluem:
- Primazia humana na produção intelectual e criativa
- Proteção de direitos autorais e definição clara de autoria
- Transparência no uso de ferramentas automatizadas
- Combate a vieses algorítmicos e proteção de dados
O documento é categórico: a produção das IAs generativas é derivada de padrões aprendidos, e não original no sentido humano. Por isso, a autoria — com sua responsabilidade legal e moral — só pode ser atribuída a pessoas.
2. Diretrizes práticas para casos de uso
Esse capítulo responde à pergunta mais prática do setor: o que posso e o que não posso fazer com IA?
O guia detalha o que é permitido, o que é obrigatório e quando é necessário informar o leitor em cada contexto. Alguns exemplos:
- Geração de texto: a IA pode ser usada para brainstorming e rascunhos, desde que haja revisão humana completa — com checagem de fatos e reescrita substancial para preservar a voz autoral.
- Criação de imagens: a orientação é priorizar artistas humanos. Quando houver uso de IA, a ferramenta deve operar com bases legais claras de treinamento.
- Tradução e revisão: permitidas com supervisão humana qualificada.
- Marketing: uso possível, com transparência sobre o processo criativo.
3. Desafios específicos das editoras brasileiras
Este é um dos capítulos mais relevantes para o contexto local. O manual aponta que a maioria das IAs globais reflete perspectivas e bases de dados do chamado Norte Global, o que pode invisibilizar ou distorcer a cultura, a história e as nuances linguísticas brasileiras.
As recomendações incluem:
- Incentivar o desenvolvimento de tecnologias treinadas com dados nacionais e em português brasileiro
- Cobrar maior representatividade das culturas lusófonas por parte de fornecedores globais
- Atenção especial aos desafios das pequenas e médias editoras, que têm recursos mais limitados para implementar políticas de IA
4. Sugestões de implementação
O capítulo final é voltado para a gestão interna das editoras e abrange liderança, planejamento, gestão de riscos e comunicação com autores, leitores e fornecedores.
As recomendações são fundamentadas na ABNT NBR ISO/IEC 42001, norma internacional que orienta a gestão ética e responsável da inteligência artificial em organizações.
Em relação à comunicação com o público, o manual orienta que as editoras:
- Informem claramente quando o público estiver interagindo com sistemas de IA (como atendimentos automatizados ou audiolivros com voz sintética)
- Criem canais acessíveis para que funcionários, leitores e autores possam reportar problemas ou usos indevidos
- Exijam documentação completa sobre o funcionamento dos sistemas contratados com fornecedores
Por que esse manual importa para o mercado editorial?
Segundo Cinthya Müller, coordenadora da Comissão de Inovação e Tecnologia da CBL, a iniciativa surgiu de uma percepção coletiva: as dúvidas sobre IA se repetiam nas reuniões do setor e convergiam para os mesmos pontos.
“Esperamos que o guia sirva como uma bússola para os editores e que ajude a desmistificar o mito de que a IA ‘cria’, quando na verdade ela indexa o conteúdo existente na internet, entregando-o de forma organizada.” — Cinthya Müller
O lançamento no EELDG, evento que reuniu editores, livreiros, distribuidores e gráficos por três dias em Guarujá, marca o encerramento da quinta edição do encontro — que se consolida cada vez mais como espaço privilegiado de debate estratégico para o setor.
Baixe Gratuitamente o Manual de Boas Práticas de IA
O documento está disponível para download gratuito no site da CBL. Acesse e compartilhe com sua equipe editorial: Manual de Boas Práticas de IA para Editoras Brasileiras.
Fonte das informações: PublishNews
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