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O “Efeito Wandinha”: o que as séries da Netflix ensinam sobre criar personagens que o leitor ama odiar 

Você já se pegou torcendo por um personagem que, em qualquer situação da vida real, você provavelmente manteria bem longe? 

Seja a acidez sarcástica e mórbida de Wandinha Addams (protagonista da série Wandinha, que expande o universo da Família Adams), a ambição extrema de personagens em dramas corporativos ou os dilemas de anti-heróis que cruzam limites éticos sem piscar, a cultura pop moderna revelou um padrão no comportamento do público: nós cansamos dos heróis perfeitos. 

Se você quer entender como criar personagens marcantes no mercado editorial de hoje, olhar para o audiovisual é uma aula de estrutura narrativa e retenção de atenção. 

O sucesso de produções recentes mostra que o leitor contemporâneo está buscando a complexidade dos personagens, aquele traço de humanidade torta que faz com que a gente não consiga fechar o livro ou pausar o filme, mesmo sabendo que o protagonista está prestes a tomar a pior decisão possível. 

Mas como transportar essa inteligência de construção das telas de streaming para as páginas do seu manuscrito? Vamos analisar o que está por trás do “Efeito Wandinha” e como aplicar essa engenharia na sua escrita. 

A ruína do herói bidimensional  

Durante muito tempo, a literatura comercial se apoiou na estrutura clássica do bem contra o mal. Tínhamos o herói altruísta e perfeito, enfrentando o vilão cujas motivações se resumiam à destruição ou ganância. 

O problema é que o leitor de hoje mudou, ele foi treinado por narrativas complexas e sabe que ninguém se encaixa em 100% herói ou 100% vilão. 

Quando um escritor entrega um protagonista “perfeito demais”, que só toma decisões corretas e sofre as injustiças do mundo, o público se desconecta. Falta a imperfeição que gera empatia. 

Personagens como Wandinha Addams não funcionam apesar da sua frieza, arrogância ou falta de empatia social, funcionam por causa dessas características. A estranheza e o desdém pelo convencional são a porta de entrada para a fascinação do leitor. 

Os 3 pilares para construir um personagem inesquecível 

Para sair do clichê e entender como criar personagens marcantes, você precisa ir além do visual ou dos clichês de linguagem e precisa construir uma estrutura de obra baseada em três pilares fundamentais: 

1. O poder da contradição interna 

 A mágica da conexão acontece no espaço entre o que ele mostra para o mundo e o que ele realmente sente ou precisa

  • Exemplo prático: Wandinha se vende como uma figura fria, inabalável e imune ao afeto. Porém, suas ações ao longo da narrativa revelam um código de lealdade e uma necessidade (discreta) de proteger seus amigos e familiares. Essa rachadura na armadura é o que apaixona o público. 

Se o seu personagem é extremamente durão, onde está a vulnerabilidade secreta dele? Se ele é um líder implacável, qual é o medo infantil que o faz hesitar? A contradição é o que transforma uma personalidade em um ser humano vivo na mente do leitor. 

2. Motivações claras 

O leitor não precisa concordar com as escolhas do seu protagonista, mas precisa compreender o porquê de ele estar fazendo aquilo. 

A diferença entre um vilão irritante e um anti-herói fascinante está na clareza da dor ou do desejo. Quando a motivação é sólida, seja a busca por justiça com as próprias mãos, a preservação da família ou o medo do esquecimento, o leitor topa caminhar por estradas moralmente “erradas” ao lado do personagem. 

Ao desenhar sua história, pergunte-se: qual é o desejo inegociável deste personagem? Que regras ele está disposto a quebrar para conseguir o que quer? 

3. Dilemas morais sem resposta fácil 

Se a decisão que o seu protagonista precisa tomar no clímax de uma cena for fácil, a cena é fraca. 

As produções que dominam as conversas na internet colocam seus personagens constantemente em situações de derrota. Escolher o dever ou a honra? Salvar quem ama ou proteger a comunidade? Seguir a lei ou fazer o que é certo? 

É no momento da escolha sob pressão, quando você força o seu personagem a sair da zona de conforto e tomar uma atitude desconfortável, que o caráter se revela e o leitor fica intrigado. 

O mercado lê pessoas, não apenas enredos 

Como profissional que acompanha os bastidores do mercado editorial diariamente, posso te garantir que os leitores se apaixonam pelo seu livro por causa dos personagens

É a conexão com quem habita as páginas que faz alguém comprar o volume dois, fazer fanarts, criar discussões em clubes de leitura e defender o livro nas redes sociais. 

Aprender como criar personagens marcantes também faz parte do posicionamento estratégico do seu livro em um mercado saturado de conteúdos superficiais. 

Na próxima vez que você sentar para planejar ou revisar seu manuscrito, olhe para os seus protagonistas e se pergunte essas coisas: 

  • Eles são humanos o suficiente para errar? 
  • Eles demonstram vulnerabilidade real? 
  • Eles provocam reações fortes no leitor, ou são apenas passageiros da própria história? 

Não tenha medo de dar defeitos aos seus protagonistas, porque é esse lado “sombrio” que fará o seu leitor se apaixonar pela sua história. 

O passo definitivo para construir um personagem memorável 

Se, ao olhar para os seus personagens depois dessa leitura, você percebeu que eles ainda precisam de mais conflito, contradição ou profundidade, esse é justamente o tipo de questão que não precisa ser resolvida sozinho.

Na Mentoria Arquitetos do Livro, trabalhamos a construção da obra ao longo de quatro meses, olhando para estrutura, personagens, desenvolvimento da narrativa e revisão do manuscrito. Se você quer tirar a história da cabeça e construir um livro que se sustente até a última página, conheça a mentoria aqui.


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Lilian Cardoso

Professora, jornalista e diretora da LC – Agência de Comunicação, a empresa que mais divulga livros no Brasil!
Por meio dos seus cursos e mentorias, ensina novos escritores a produzirem livros de qualidade e a alcançarem mais leitores com eficazes estratégias de marketing.

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